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Sem eufemismo: PCC e CV serão enfim chamados pelo que de fato são

Durante mais de duas décadas de atuação como jornalista, acompanhei de perto a expansão do crime organizado no estado de São Paulo. Cobri operações policiais em comunidades dominadas pelo tráfico, rebeliões em presídios, apreensões de grandes carregamentos de drogas e a árdua rotina de profissionais da Segurança Pública no enfrentamento de uma das estruturas criminosas mais poderosas do continente.

Em 2009, grávida do meu segundo filho, fui acordada em meio à madrugada para cobrir mais um episódio da ofensiva do PCC contra as Forças de Segurança na Baixada Santista. Enquanto policiais eram executados e Delegacias, atacadas, agentes públicos viravam alvos de uma organização que buscava e ainda busca demonstrar força e desafiar o Estado.

O objetivo de tais ofensivas nunca foi apenas financeiro. O lucro alimenta a estrutura, é claro, mas o instrumento de poder é a imposição pelo medo, que subjuga e silencia comunidades, restringe a circulação de pessoas, dificulta denúncias e cria regras paralelas de convivência. É o temor às facções que permite a ocupação de territórios e enfraquece a presença do poder público.

Esta lógica, com o tempo, só ganhou mais força, espaço e ramificações. Em 2024, durante a campanha municipal, uma carta atribuída ao PCC foi divulgada com ataques à minha candidatura à prefeita de Santos-SP. O lamentável fato expôs a crescente capacidade das organizações criminosas de interferirem no debate público, de produzirem intimidação e de buscarem influência para além dos territórios dominados pelo crime.

Nos últimos anos, estas facções ampliaram a capacidade financeira, diversificaram atividades ilícitas e fortaleceram conexões internacionais. Segundo autoridades norte-americanas, PCC, que surgiu em São Paulo, e CV, originado no Rio de Janeiro, deixaram de ser organizações restritas ao território brasileiro e passaram a atuar em redes criminosas transnacionais com insofismável alcance internacional.

Hoje, estas organizações movimentam recursos em escala global, infiltram-se em cadeias logísticas complexas e desafiam instituições, inclusive as da seara da Justiça. Ignorar esta transformação, ampliação meteórica e poder de infiltração, portanto, é erro estratégico.

A classificação definida pelos Estados Unidos, em vigor, oficialmente, a partir de 6/6, não resolverá, sozinha, os problemas da Segurança Pública brasileira, mas terá capacidade de ampliar a cooperação internacional, de fortalecer instrumentos de rastreamento financeiro e de aumentar a pressão sobre redes que dependem da circulação global de recursos.

Como deputada federal em segundo mandato, em Brasília-DF, nos últimos anos, destinei um sem-número de aportes às Forças de Segurança da Baixada Santista e de outras cidades do estado de São Paulo, para a aquisição de embarcações blindadas, de drones, de viaturas, de equipamentos e de Tecnologias de Inteligência Policial.

Segurança Pública, por conseguinte, não é pauta abstrata para mim. É causa cristalizada a partir de experiências que vivi nas ruas, ouvindo vítimas e observando a violência e os impactos que facções produzem sobre famílias inteiras.

Muito além dos debates diplomáticos sobre soberania nacional e cooperação internacional, e no quanto tal medida por parte dos Estados Unidos pode impactar o sistema financeiro brasileiro, é necessário admitir que as ações até agora instituídas pelo País no enfrentamento do crime organizado não foram e nem são suficientes.

É preciso, de alguma maneira, dar um basta em quem espalha o terror pelas comunidades dominadas pelo tráfico de drogas e de armas, e empodera milícias. E, para tanto, pouco importa o idioma e a coloração partidária. O que está em jogo é o combate intrépido ao crime organizado e a instituição de paz.

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